Nosso dia foi longo e amanhã nos espera outro. Somente agora tenho alguns momentos para relatar tudo o que vivemos no curto espaço de um dia. Nem parece que foi ontem que chegamos à Polônia: já conhecemos um pouco do centro de Varsóvia, o cemitério, Tykocin, Lupochowa, Treblinka, e já compartilhamos refeições e atividades com outros grupos de diferentes cidades.
Sei que os leitores desse blog aqui recorrem em busca dos sorrisos de seus queridos nas fotos e com o intuito de verificar que estão bem nutridos e corados. Mas, não posso me furtar de compartilhar também algumas palavras (na verdade, até posso, mas gosto de compartilhar com vocês...) sobre o que vivemos hoje.
As imagens (aliás como são belas as imagens dessa viagem!) transmitem muito, mas a palavra tem outro poder. A palavra cria. Transmite impressões, medos, sensações, odores. Então, caro leitor, sempre que possível e que o tempo permitir, relatarei aqui um pouco da nossa experiência, ciente das limitações que, não raro, tornam impossível explicar o que sentimos ao lidar com a Shoá, especialmente depois de estar na Polônia.
Primo Levi dizia que o idioma precisaria ser alterado após o holocausto, pois a palavra "fome", que usamos quando desejamos repetir o prato, não descreve o que sente alguém que não come há uma semana. A palavra "frio", muito utilizada na última semana em Porto Alegre, não descreve o que sente alguém que é forçado a sair de noite, no inverno polonês, exposto à 40 graus negativos vestindo apenas uma camisa de flanela. Não há palavras humanas para descrever o que ocorreu aqui durante a guerra. Palavras também tem suas limitações. Sem embargo, são as ferramentas que temos, principalmente estando à distância que nos separa.
Bom, então vamos lá.
Nossa primeira parada após o café da manhã foi o cemitério judaico de Varsóvia. Em hebraico há muitas maneiras de dizer cemitério "beit hakvarot" (literalmente: "casa dos túmulos"), "beit haalmin" ou "beit hachayim" (literalmente: "casa da vida"). O cemitério é a "casa da vida" ou "casa dos vivos" pois nossas almas são eternas e os que descansam no cemitério permanecem sempre vivos.
Mas, aqui em Varsóvia, essa última expressão se aplica em todos os sentidos. É o cemitério, ainda ativo por sinal, que mantém acesa a vida judaica de Varsóvia. A cidade foi devastada no final da guerra (em parte como resultado do levante e de outras rebeliões contra os nazistas). Diz-se que a média de altura das construções em Varsóvia em 1945 era de 3m. Portanto, sinagogas, escolas, casas, e tudo o mais que pudesse remeter a uma vida judaica foi praticamente varrido daqui. O cemitério é o registro vivo de centenas de anos de vida judaica pujante.
Até 1939, haviam cerca de 300.000 judeus em Varsóvia. Judeus que viviam aqui há muitas gerações. Nos próximos dias passaremos mais tempo aqui e vamos falar do que aconteceu aqui durante a guerra. Os nazistas tentaram varrer sua lembrança, mas o cemitério mantém sua memória e nos conta quem foram e como viveram. Cada uma dessas pessoas no cemitério tem um nome.
Pra nós, membros de uma comunidade que congrega, se tanto, apenas 10.000 judeus em Porto Alegre e que aqui se alicerçou a apenas 100 anos é impossível entender a dimensão de uma comunidade com 300.000 após 600 anos de existência. O cemitério de Varsóvia dá essa dimensão. É um lugar enorme, e revela uma próspera comunidade, do ponto de vista cultural, social e religioso. Aqui estão enterrados grande rabinos e eruditos, também médicos, acadêmicos, poetas e escritores. Aqui está enterrado Ludwig Zamenhof, criador do idioma Esperanto. Uma pequena amostra da importância dessa comunidade e de suas contribuições para o mundo.
Parede no Cemitério
Túmulo de soldados judeus que serviram o exército polonês e tombaram durante a invasão alemã em 1939
Monumentos aos que lutaram no Levante
Parede no Cemitério
Túmulo de Zamenhof (escrito em Esperanto)
Caminhamos pelas ruelas finas e longas do cemitério. Vez que outra nos deparamos com pedaços de túmulos. Os nazistas utilizava frequentemente pedras de túmulos (matzevot) para pavimentar as ruas ou para construir muros, de modo que há ainda muitos pedaços espalhados pelo cemitério. Vimos túmulos em hebraico, outros em iídiche ou polonês, dando uma dimensão também da pluralidade desta comunidade. Aprendemos sobre os diferentes sinais que aparecem nos túmulos e seus significados. Vimos túmulos recentes de sobreviventes enterrados já no século XXI. Alguns já viviam em outros países, como os Estados Unidos, mas pediram para ser enterrados em sua cidade natal.
Uma das mais tristes realidades do cemitério, no entanto, é a vala comum. Durante os anos da guerra, aqueles que morreram de fome no gueto e cuja família não possuía os meios ou a força para providenciar um túmulo foram sepultados em uma vala comum que reúne milhares de corpos. Estes foram enterrados sem nome. Muitos destes não tiveram nem sequer um familiar para acompanhar seu sepultamento, ocupados que estavam em conseguir um pedaço de pão para sobreviver mais um dia ou porque tiveram o mesmo destino antes do seu.
Uma das Valas Comuns
Tumulo de Adam Cherniakow
Saímos do cemitério e viajamos para nordeste até Tykocin para conhecer uma realidade bem diferente. Se Varsóvia era a capital da Polônia com cerca de um milhão de habitantes, Tykocin era apenas um povoados como outros tantos neste país plano e agrícola. Na pequena Ticocyn, outrora prosperava uma pequena comunidade judaica, com pouco mais de 2000 almas. Os judeus eram, em Tycocin, 70% da população do lugar. A aldeia era um autêntico "shteitl" próximo à fronteira com a Rússia no leste e com a Lituânia no nordeste.
Chegamos ao shteitl, e visitamos a sinagoga. Um prédio imponente, construído em 1642. Suas altas paredes de concreto branco contrastam com as pequenas e humildes casas de madeira que o cercam. Ainda hoje é possível perceber como funcionava essa próspera comunidade que ali viveu por mais de 500 anos. Conhecemos interior da sinagoga, todo adornado e colorido. Suas paredes trazem textos hebraicos, cuidadosamente pintados, espalhados por todos os cantos.
Interior da Sinagoga de Tykocin
De lá, fomos até o bosque de Lupochowa, nas proximidades da cidade. Marchamos pela tranquila floresta até as clareiras criadas pelos nazistas e onde se encontram enterrados, em uma vala comum, todos os membros da comunidade. Em único dia, 25 de Agosto de 1941, os nazistas levaram todos os judeus da cidade até a floresta, onde foram despidos, fuzilados e atirados nas valas comuns. Em um único dia, 500 anos de vida judaica foram destruídos, sorrisos de crianças silenciados, sonhos e esperanças despedaçados.
No interior da floresta, onde não poderiam gritar por socorro! Mesmo na cidade, quem os ouviria? O mundo preferiu ignorar a dor e a realidade dos judeus. O mundo preferiu ignorar o mal. A floresta, tão pacata e inocente, escondeu esse mal. Apenas 9 pessoas sobreviveram, por destino ou providência, a este massacre. A comunidade de Tykocyn silenciou do dia pra noite. O canto das crianças nas escolas e dos pequenos que frequentavam o cheder. O júbilo de um casamento e o grito do leiteiro. Tudo isso, do dia para a noite, se foi. Ficou apenas o silêncio da ausência e a ausência do silêncio.
Fizemos, então, em meio ao silêncio, uma breve cerimônia, antes de caminhar pela trilha de volta ao nosso roteiro.
Caminhando em Lupochowa
Seguimos adiante. Paramos para almoçar no caminho. Sempre aprendemos um pouco sobre a cultura local nessas paradas. Infelizmente, nessa parada, o que aprendemos foi que existem maquinas eletrônicas especialmente desenhadas para servir de roleta e cobrar 1 zlote pelo uso do banheiro. Mas, tudo bem, um baixo preço a pagar pelo conforto. Comemos nossos sanduíches e seguimos para o monumento de Treblinka.
Numa segunda fase da guerra, os nazistas se deram conta que a estratégia de assassinar os judeus fuzilando-os era lenta e cara. Além disso gerava sérios problemas de moral para as tropas e parecia levar muitos soldados ao alcoolismo e à depressão. Os Einsatzgruppen, terríveis grupos de extermínio nazistas tinham a missão de fuzilar e enterrar os judeus não estavam imunes ao terror que a alma experimenta após assassinar, à sangue frio um idoso, uma mulher ou uma criança. O ser humano pode ser cruel, mas deixa de ser humano.
Assim, os nazistas passaram a implementar campos de extermínio onde o assassino não tem contato direto com suas vítimas. Não precisa olhar no olho para uma criança e atirar. Ele conduz suas vítimas à câmara de gás e as sufoca. Depois, força prisioneiros a queimar os corpos e destruir as evidências, não sem antes, claro, roubar-lhe tudo, dos cabelos às obturações dentárias. Assim foram assassinados a maior parte dos judeus que pereceram no holocausto. Somente em Treblinka, morreram cerca de 870.000 pessoas. Era apenas um campo de extermínio, não de trabalho. Aqui chegavam comboios para não sair. A maior parte da comunidade de Varsóvia foi assassinada em Treblinka.
Ainda antes da guerra terminar, os nazistas desmontaram o campo. Araram tudo e montaram uma fazendo em cima, com um instituto de estudos agropecuários. Portanto, nada sobrou do campo, apenas os relatos dos que sobreviveram (houve uma revolta em Treblinka e cerca de 40 judeus escaparam com vida e sobreviveram à guerra).
Conhecemos o monumento, que reúne diversas pedras, representando as diferentes comunidades que tiveram judeus deportados para lá para encontrar o mesmo destino. Nos reunimos e voltamos para o ônibus para, finalmente retornar a Varsóvia.
Treblinka
Treblinka
Aqui, jantamos e fizemos uma atividade com os outros grupos do Brasil. Mas este post está muito longo (sem falar que deve estar chato...). Então vou parando por aqui. Mais tarde posto um vídeo sobre hoje.
Chato nada!!!! uma aula maravilhosa!!! beijos a todos
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEmocionada!
ResponderExcluirFantástico o relato! Muito obrigado por nós proporcionar!
ResponderExcluirFantástico o relato! Muito obrigado por nós proporcionar!
ResponderExcluir